A INÉRCIA DO CORPO HUMANO DURANTE OS SONHOS

WELBERTH WARBLER MARTINS FERREIRA

Tenho o costume de dormir com o rádio ligado na cabeceira da minha cama. Um dia sonhei que estava andando por uma rua cuja paisagem era tão maravilhosa que mais parecia um paraíso.

Tudo estava indo muito bem quando de repente, surge, como num passe de mágica , um artista cantando uma daquelas músicas populares que tanto detesto. Quando esta música começou a ser tocada e cantada, o meu sonho deixou de ser um paraíso e se transformou num verdadeiro inferno. Imediatamente veio em mim o seguinte pensamento: tenho de fazer alguma coisa com urgência para acabar com toda esta tortura. Definitivamente não posso continuar vivendo neste inferno. Felizmente pude perceber que estava adormecido o bastante para sonhar ao mesmo tempo em que estava acordado o suficiente para saber que aquela música a qual estava tornando o meu sonho, um inferno, não estava sendo produzida pelo meu cérebro mas sim pelo aparelho de som que estava ligado na cabeceira da minha cama. Logo vi que para acabar com todo aquele tormento bastava mudar a estação do rádio.

Por mais que eu visse a minha mão se mover, para cima da minha cabeça onde estava o rádio, não podia sentir o seu movimento e muito menos conseguia encontrar o aparelho de som. Foi quando fiz a mim as seguintes perguntas: se a minha mão e o meu braço estão se movendo, então porque não consigo sentir os seus movimentos? Porque não consigo encontrar o rádio já que a minha mão está no lugar exato a onde ele se encontra? É óbvio que alguma coisa está errada, mas o que exatamente está errado?

Após fazer todas estas perguntas veio a mim um outro pensamento: Se eu baixar a mão e ergue-la novamente até a cabeceira da minha cama onde se encontra o rádio, e repetir este mesmo gesto várias vezes, talvez eu consiga encontra a solução do problema. Após passar algum tempo (aproximadamente 12 segundos), repetindo este gesto ao mesmo instante em que pensava neste enigma, consegui ,finalmente, encontrar a resposta: não sou capaz de sentir os movimentos da minha mão e do meu braço pela simples razão de que estou pegando o ponto de referencia errado. Ao invés do meu cérebro pegar como ponto de referencia a mão e o braço do meu próprio corpo, estava pegando, como referencia, o braço e a mão da imagem do meu corpo o qual estava sendo perfeitamente reproduzida no meu sonho. Quando me dei conta da existência deste detalhe, me concentrei em meu corpo existente na vida real para mudar o meu ponto de referencia. Ao invés de pegar como referencia a mão e o braço da imagem do meu corpo o qual estava sendo reproduzida no meu sonho, consegui pegar como referencia a mão e o braço do meu próprio corpo. Apesar de ainda está sonhando, pude desta vez, não só ver a minha mão e o meu braço se movimentar como também consegui sentir seus movimentos os quais partiam para cima da minha cabeça de modo a ir em direção a cabeceira da minha cama onde o rádio estava localizado. Fiquei totalmente acordado quando a minha mão estava prestes a segurar o aparelho de som.

Após mudar a estação do radio, comecei a analisar toda aquela situação a qual tinha acabado de vivênciar. Descobri então que o grau de relaxamento do meu corpo, no exato momento em que via a minha mão e o meu braço se moverem sem poder sentir seus movimentos, era exatamente igual ao maior grau de relaxamento que eu podia obter agora que estava totalmente acordado.

 

 

Conclusão

 

A teoria a qual afirma que nós não podemos nos mexer na vida real, quando estamos sonhando, pela simples razão de que o nosso corpo esta extremamente relaxado é falsa, uma vez que o grau de relaxamento do nosso corpo, na hora em que estamos dormindo, é idêntico ao maior grau de relaxamento que podemos obter quando estamos acordados. O que impede o ser humano de se mover durante os sonhos não é o grau de relaxamento do corpo mas sim o ponto de referencia o qual é adotado pelo nosso cérebro. Este ponto de referencia tanto pode ser real ou fictício. Se o ponto de referencia adotado pelo seu cérebro for um ponto de referencia real, o seu corpo será capaz de fazer na vida real todos os movimentos os quais só deveriam ser feitos no interior dos seus sonhos, mas se o ponto de referencia for imaginário, neste caso você estará incapacitado de fazer na vida real os movimentos os quais são executados no seu sonho, uma vez que o cérebro está enviando toda a sua energia, para um ponto de referencia virtual.



sono!

Considere agora uma seção de hipnotismo onde é passado para a pessoa hipnotizada a seguinte instrução: vou contar até três, quando eu disser o número três você não mais será capaz de movimentar as suas mãos. Terminado de passar esta instrução, dou início a contagem crescente de um a três, e na hora em que eu falo três a pessoa a qual foi hipnotizada faz um esforço tremendamente grande para mover as mão, no entanto, por mais que ela se esforce para movimentar as mãos ela nunca consegue. Heis que surge agora a questão da pergunta: qual é o motivo que impede a pessoa hipnotizada de se mover ? A resposta é muito simples: o motivo desta pessoa estar imobilizada é que o seu cérebro está pegando um ponto de referencia fictício ao invés de pegar um ponto de referencia real. É exatamente isso que acontece quando estamos sonhando. Durante o sonho, o nosso inconsciente se torna mais ativo do que a nossa consciência. Esta maior atividade do nosso inconsciente provoca o envolvimento da nossa consciência em um estado hipnótico o qual induz o nosso cérebro a substituir o seu ponto de referencia real por um ponto de referencia fictício.

O cérebro humano é feito de dois hemisférios. São eles : o hemisfério direito e o hemisfério esquerdo. O normal é os dois hemisfério do cérebro passarem pelo processo de adormecimento e despertar ao mesmo tempo, porém, esta atividade cerebral perfeitamente harmônica pode ser perturbada por meio de sinais sonoros. Se o cérebro humano for manipulado de forma a fornecer a apenas um dos seus hemisférios, os estímulos sonoros adequados, este hemisfério o qual esta sendo excitado por sinais sonoros irá iniciar o seu processo de despertar, enquanto que o outro hemisfério permanecerá em estado de hibernação. Foi exatamente isso que aconteceu comigo enquanto estava sonhando. O hemisfério do meu cérebro que se encontrava em estado de hibernação me permitiu continuar sonhando, enquanto que o outro hemisfério, o qual iniciou precocemente o seu estágio de despertar, me permitiu ficar consciente da seguinte realidade:

1º ) A música a qual estava tornando o meu sonho, um inferno, não estava sendo produzida pelo meu cérebro mas sim pelo aparelho de som que estava ligado na cabeceira da minha cama;

2º ) para resolver o problema da música que estava transformando meu sonho num inferno bastava mudar a estação do rádio;

3º ) Por mais que a minha mão se movesse não era capaz de sentir seus movimentos e muito menos podia perceber a existência do rádio que estava logo acima da minha cabeça;

4º ) O grau de relaxamento do meu corpo, no exato momento em que via a minha mão e o meu braço se moverem sem poder sentir seus movimentos, era exatamente igual ao maior grau de relaxamento que eu podia obter quando estou totalmente acordado e

5º ) Não era capaz de sentir os movimentos de minhas mãos e tão pouco segurar o aparelho de som devido ao fato do meu cérebro estar pegando um ponto de referencia fictício ao invés de pegar o ponto de referencia real;

A história relatada aqui está baseada em fatos reais, em nenhum momento foram realizadas experiências cientificas durante o desenvolvimento deste trabalho.

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